''ATACAR'' ou ''CRITICAR'': o verbo depende de quem é o sujeito
- Elton G.P

- 18 de abr. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 11 de jan. de 2022

Quem acompanha o noticiário, televisivo ,impresso ou virtual, precisa estar atento ao uso de palavras e à recorrência dos recursos linguístico-discursivos na constituição de manchetes.
''Printei'' umas três dezenas de manchetes a fim de analisar a recorrência do uso dos verbos ''atacar'' e ''criticar'' no noticiário político e cheguei à conclusão de que o uso de um ou de outro vai depender do sujeito.
Sempre que o presidente Bolsonaro responde a uma ''crítica'' (por que não ataque também?), todas as manchetes dos principais órgãos da grande imprensa corporativa usam de forma unívoca o verbo ''atacar'' ou o substantivo deverbal ''ataque'',derivado desse verbo: ''Bolsonaro ataca Rodrigo Maia'', '' Maia se recusa a rebater ataques de Bolsonaro'', ''Bolsonaro ataca os governadores mais uma vez'', ''Maia critica fake news e ataques feitos pelo 'entorno do governo'' etc.




A opção lexical dos jornais da grande mídia pelo verbo ''atacar'', ou pelo seu deverbal ''ataque'', em relação ao verbo ''criticar'', em manchetes nas quais o presidente simplesmente poderia estar reagindo a uma crítica, se deve ao fato de o verbo ''atacar'' ser um verbo de ímpeto, de instinto, que dispensa o uso do raciocínio e da razão. Logo, qualquer que seja a razão, quem ataca não tem razão, ressaltando-se assim o aspecto grosseiro e animalesco do sujeito que ''ataca''.

Em contrapartida, quando os opositores do presidente manifestam desde críticas a ataques pessoais ao mandatário e ao seu governo, pode-se observar que o verbo ''atacar'' é substituído pelo verbo ''criticar''. A substituição não é meramente um movimento de variação vocabular ou lexical. A opção lexical traz subjetividade ao texto ao transmitir o ponto de vista de quem escreve, e pela seleção lexical (''atacar'' ou ''criticar'') se manifestam as opiniões e ideologias dos locutores.




''Criticar'' é um verbo mais elegante, que traz embutido em si o uso do raciocínio, da ponderação e do pensamento sofisticado. É um verbo cuja ação apenas seres humanos exercem. Um gato não critica o rato, mas o gato ataca o rato.Entendeu? Nas manchetes em apreço, os oponentes do presidente sempre acionam o verbo ''criticar'' em opção ao verbo ''atacar'': ''Doria critica Bolsonaro por ataques ao Congresso e ao STF'', ''Witzel critica Bolsonaro por demitir Mandetta'', ''Maia critica pronunciamento de Bolsonaro e pede sensatez''.
Em síntese, o que mais me interessa nessa questão não é fazer vista grossa para o excesso verbal do presidente. Em muitos momentos, desnecessário. Mas o interesse linguístico: analisar as escolhas lexicais feitas pelos grandes jornais e como essas opções lexicais vão evidenciar a posição política dos grupos de mídia na trama política.
Goste-se ou não, quando o presidente chama a ''grande mídia'' para o embate político, ele o faz convicto de que essa ''grande mídia'' é hoje um ator político e, por conseguinte, e tem participação decisiva no embate político, seja como um adversário, seja como aliado, mas sempre como um ator político decisivo.




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